quarta-feira, 23 de maio de 2012

Qualitativo e quantitativo

Como leitura introdutória, essa postagem cola um trecho da  comunicação de  Jaime Raúl Seixas Fonseca, pesquisador da Universidade Técnica de Lisboa, no VI Congresso Português de Sociologia, em 2008.

Link: http://www.aps.pt/vicongresso/pdfs/346.pdf

QUALITATIVO E QUANTITATIVO:

"Se nos detivermos um pouco nas etapas da investigação social facilmente notaremos que o qualitativo e quantitativo podem coexistir em cada processo de investigação. Assim, numa primeira fase temos a preparação da investigação, onde sobressaem o estabelecimento do objecto a estudar (especificação da problemática, investigação documental, teoria e sentido da investigação) e a estruturação da investigação (estrutura da prova, medida, amostragem, ética); segue-se a formação da investigação (observação directa, entrevista não dirigida, história da vida, grupo de discussão, análise de conteúdo, sondagem, dados secundários, simulação por computador); por fim, a análise da informação (tratamento dos dados, análise dos dados). Seria muito difícil não encontrar lugar para as duas metodologias em cada uma dessas três fases. Há potencialidades e limitações em ambas as abordagens, qualitativa e quantitativa, certamente. Se utilizados dentro dos limites das suas especificidades, na base da teoria da relatividade, ambas podem contribuir efectivamente para a procura de construção de teorias, formulação e teste de hipóteses, ou seja, melhor conhecimento da realidade. Os cientistas sociais não retiram frequentemente a informação disponível nos seus resultados estatísticos perdendo assim oportunidades de apresentar quantidades que poderiam resultar em maiores esclarecimentos das suas questões de investigação. Aliás segundo Bourdieu (1972), também na abordagem puramente qualitativa há investigadores que não passam além da “ilusão da transparência”, isto é, da repetição do que ouvem e vêem no trabalho de campo.

Com o intuito de medir o status sócio económico em estudos de desenvolvimento de crianças, não é fácil obter medições sólidas de antecedentes sociais e económicos de crianças; será necessário um investimento razoável na recolha de dados, respectiva codificação e correspondente tratamento. Desigualdade, por exemplo, tem sido um tema de grande interesse por parte de sociólogos, ainda que não seja fácil para eles a especificação clara do seu significado. Dadas duas distribuições diferentes, distribuições diferentes do mesmo fenómeno social, como decidir sobre qual delas é maior? A resposta a esta questão deveria ser um pré requisito para qualquer teoria sobre causas e consequências da desigualdade social. Os testes de hipóteses podem ser decisivos nesta matéria, explicando por exemplo como algumas sociedades são menos iguais do que outras.

Trout (1998) realça em particular como sucesso para as ciências sociais o uso efectivo de testes estatísticos. Segundo este autor, investigadores sociais aplicam diversas ferramentas estatísticas de medida à realidade social, sendo mesmo capazes de refinar e melhorar essas medidas ao longo do Os métodos quantitativos podem ser úteis a praticamente toda a sociologia, especialmente à sociologia quantitativa; a matemática, em geral, introduz lógica, simplicidade e elegância na análise). Não existe nenhuma disciplina de ciências sociais que possa não contemplar a abordagem quantitativa, como não existem desenvolvimentos sérios em ciências sociais em ambiente escolar que possa negar a importância da contribuição da investigação por métodos quantitativos. Os sentimentos contra os métodos quantitativos, anti-positivist, varia desde desconfiança na informação numérica e nos métodos estatísticos associados até à ignorância acerca da investigação quantitativa contemporânea. Os ataques, em sociologia como em ciências sociais na generalidade, através de proponentes da sociologia qualitativa, têm como um dos poucos pontos comuns a rejeição dos métodos quantitativos na sociologia e de qualquer espécie de métodos sistemáticos, fundamentados e transparentes para selecção de dados e respectiva análise. Mas a sociologia industrial necessita de mais do que um conjunto de métodos, para o qual o trabalho de campo passou a ser dominado pela observação e entrevista indirecta e o pensamento metodológico passou a preocuparse com a descoberta, organização social e o conceito de sistema social e termina dizendo que se a sociologia se mantiver também flexível, ficará equipada em todos os aspectos para a grande estratégia.

Desenvolvimentos na metodologia sociológica e na sociologia quantitativa têm estado desde sempre relacionados de perto com desenvolvimentos na teoria estatística, metodologia e computação, e estatísticos sociais, considerados decisivos para o desenvolvimento de metodologias estatísticas para as ciências sociais. Os métodos quantitativos são essenciais aos estudos sociais, sendo principalmente através da ajuda de tais métodos que esses estudos podem ser expostos ao ranking das ciências. Enquanto quantificação é uma estratégia que enfatiza explicitamente cada passo da investigação (técnicas de medida, dados, métodos de avaliação), não existe um modelo aceite para investigação qualitativa boa, com critérios consensuais para avaliação dos seus verdadeiros conteúdos.
Logo se percebe a importância dos métodos quantitativos ou análise estatística aplicada em investigação na área das ciências sociais, mas não se pode deixar de colocar uma questão pertinente: qual o nível de métodos quantitativos para o qual os alunos licenciados em ciências sociais devem ser preparados, para serem competitivos, na academia ou no mercado de trabalho? A resposta dependerá sobretudo da disciplina considerada na área das ciências sociais. Os métodos quantitativos de investigação em economia são substancialmente mais sofisticados matematicamente do que aqueles usados em administração pública, sendo que os métodos quantitativos usados em ciência política, antropologia, política social e sociologia estarão situados entre os anteriores. Os investigadores podem continuar a tentar sobreviver à custa de literatura publicada ou de colegas, mas mesmo assim necessitarão de possuir conhecimento em métodos quantitativos, porque investigação é um processo produtivo que nem sempre pode ser direccionado, pelo que mais cedo ou mais tarde surgirá uma questão importante que será melhor respondida mediante análise estatística. Noutra perspectiva, ainda que uma significativa proporção de funções disponíveis no mercado de trabalho na área de ciências sociais não exijam competências de métodos quantitativos, um licenciado que escolha nãodesenvolver essas competências coloca-se logo em significativa desvantagem".

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